TDAH – Tratamentos Alternativos/Complementares – Parte 1

TDAH – Tratamentos Alternativos/Complementares – Parte 1

Por Gabriel Baptista – Psicólogo – CRP 06/127340

 

Em texto publicado anteriormente pela psicóloga Renata Lela, aqui no site do Esperanto Espaço Terapêutico, foi apresentado um panorama a respeito do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, o TDAH, suas características, a forma como é feito o diagnóstico e a indicação de tratamento. Sabemos que, no momento atual, o tratamento considerado mais eficiente para o TDAH é a combinação de medicação e intervenção terapêutica (em especial de abordagem comportamental ou cognitivo-comportamental). No entanto, com crescentes preocupações a respeito da banalização do diagnóstico e de sua medicalização, cresce a busca por alternativas aos tratamentos tradicionais. E elas estão surgindo com força cada vez maior, embora a maioria esteja num estágio inicial da investigação de sua efetividade.

Os dados a seguir têm por objetivo apresentar algumas dessas alternativas, e baseiam-se, em sua maioria, em estudos de casos, tendo apresentado eficácia para o tratamento de algumas pessoas, mas sem ainda ter passado pelo teste da generalização dos resultados, ou seja, apesar de terem funcionado em alguns pacientes, não necessariamente funcionarão em todos. Trazemos essas informações para expandir o conhecimento acerca dessas possiblidades, enquanto recomendamos que, caso haja interesse em algumas delas, busque-se conhecer mais sobre seus potenciais e limitações. No final do texto, você encontrará alguns links nos quais pode se informar melhor sobre o assunto.

Vale lembrar que o uso dessas técnicas não vai necessariamente substituir o tratamento convencional, mas, na maioria das vezes, complementá-lo. É importante conversar com seu médico ou psicólogo antes de resolver aderir a uma dessas alternativas.

 

Yoga

Uma criança hiperativa praticar Yoga pode soar absurdo. Se os portadores de TDAH tem dificuldade para ficar parados e concentrados, como poderiam ser adeptos de uma atividade focada no relaxamento muscular e manutenção de posturas corporais? Porém, pensando por outro lado, o quadro parece mais interessante, afinal, o relaxamento, a concentração, a calma inerentes à prática da Yoga, costumam ser exatamente o que essas crianças precisam aprender.

Pode ser difícil no início. Inclusive, para grande parte dos casos, estar medicado pode ser uma condição essencial para viabilizar a atividade, ao menos no início. Outro fator que favorece a adesão das crianças é trabalhar a Yoga de forma lúdica, com a proposta de jogos e brincadeiras com as posturas, que ganham nomes que estimulam a imaginação da criança (postura do macaco, do elefante, etc.).  Mesmo assim, os resultados podem demorar a aparecer: é necessário persistência por parte da criança e dos pais.

No entanto, uma vez que os praticantes habituam-se aos exercícios, os benefícios são grandes, manifestando-se nos três domínios do TDAH: impulsividade (realizar as posturas com calma, esperando o momento para passar para a próxima), hiperatividade (o relaxamento contribui para diminuir a inquietação) e desatenção (aprendendo, através da concentração nas posturas, a focalizar sua atenção em uma única coisa, sem focar nos outros estímulos ao redor). A prática frequente também pode resultar numa melhora na qualidade do sono (que costuma ser conturbado para os portadores do transtorno).

Os exercícios de respiração, meditação e concentração, também podem ser transpostos para o dia-a-dia, sendo utilizados para manter a calma perante conflitos (controle da impulsividade), antes ou durante eventos estressantes como provas escolares (aumento da calma e da atenção), entre outras estratégias que podem se utilizadas para lidar com dificuldades. É importante que o instrutor, que deve ser um profissional competente, oriente bem seus alunos e os ensine a fazer essa transição, generalizando os ganhos obtidos na prática do Yoga para as outras áreas de sua vida.

 

Xadrez

Outra vez, uma situação que pode parecer difícil de imaginar: uma criança hiperativa sentada por grandes períodos de tempo, focada num jogo que exige um alto grau de concentração e planejamento. No entanto, o jogo de xadrez pode ser um grande aliado da pessoa com TDAH, desde que apresentado no tempo e contexto adequados. Novamente se fará necessário que a criança já esteja recebendo algum tipo de tratamento, para que tenha condições de envolver-se com a atividade. Caso contrário, é provável que o portador de TDAH simplesmente não consiga manter-se jogando ou não se interesse o suficiente, o que resultará em frustração e minará qualquer chance de sucesso no emprego do xadrez no tratamento.

Além da melhora nos três sintomas nucleares do TDAH, a prática regular e sistemática do xadrez ajuda na criação de hábitos, que é algo muito importante de se desenvolver nas crianças em idade escolar, visto que facilitará o desenvolvimento do hábito de estudos, por exemplo. Aprende-se também a desenvolver a capacidade de tomada de decisões. Na vida, por vezes pagamos caro por decisões erradas; num jogo, as consequências limitam-se ao desenvolvimento da partida. Aprender a parar, pensar, antecipar consequências e desenvolver/adequar um plano é uma habilidade de vida essencial, que muitas vezes encontra-se prejudicada pela impulsividade característica da pessoa hiperativa.

O fato de ser um jogo a dois também beneficia as interações sociais. É comum que, ao final da partida, os jogadores discutam o seu desenvolvimento, compartilhando impressões e dicas e discutindo estratégias e possibilidades. Além disso, o xadrez também exercita a tolerância à frustração (quem já jogou sabe o quanto uma partida pode ser frustrante!) e ajuda a regular as emoções que as acompanham, desenvolvendo controle da impulsividade. Por fim, há um claro ganho no desenvolvimento da memória visual, processual e de trabalho, visto que se deve memorizar padrões de jogadas tanto para utilizá-las quanto para predizer os movimentos dos adversários.

 

Neurofeedback

Nossa atividade cerebral pode ser medida através dos tipos de ondas elétricas geradas enquanto nos engajamos em alguma tarefa. Pode parecer complicado, mas na prática, podemos dizer que nosso cérebro se comporta de maneiras diferentes dependendo do tipo de atividade na qual nos engajamos. Nas pessoas com TDAH, há um aumento na presença de ondas theta, que são referentes a atividade e excitação, enquanto aparecem menos as ondas beta e alpha, relativas ao relaxamento e à concentração, respectivamente. O neurofeedback consiste num treinamento neurocomportamental para o desenvolvimento de autocontrole sobre os padrões cerebrais.

Para tal, eletrodos são fixados ao couro cabeludo do indivíduo e registram sua atividade cerebral, que é analisada em tempo real por um programa de computador. Essa análise é traduzida em forma de imagens numa tela, geralmente assumindo um formato parecido com o de um video-game, no qual você ganha pontos conforme suas ondas cerebrais se aproximam do padrão desejado. Dessa forma, a pessoa é treinada a modificar sua atividade cerebral de modo a entrar num estado de maior atenção. É um aprendizado gradual, que requer diversas sessões para que o progresso resulte em mudanças significativas para a pessoa.

A eficiência do tratamento depende da motivação e engajamento do paciente, o que não costuma ser problema para as crianças com TDAH, pois, geralmente, a possibilidade de jogar um video-game sem controles, apenas com o “poder da mente”, é bastante atraente para crianças e adolescentes. Entre os benefícios dessa técnica podemos citar: aumento no ritmo de aprendizagem, melhora da memória de trabalho, aumento da concentração, melhora na gestão do estresse e superar o medo do fracasso, melhora na velocidade de processamento de informações, melhores resultados em atividades artísticas e viso espaciais, aumento na motivação e aumento da plasticidade neuronal (capacidade do cérebro de se adaptar a novas situações).

 

Fontes:

Yoga

http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u4192.shtml

http://www.fundacioncadah.org/web/articulo/beneficios-del-yoga-en-ninos-con-tdah.html

 

Xadrez

http://www.fundacioncadah.org/web/articulo/tdah-y-ajedrez-rehabilitacion-cognitiva-.html

Neurofeedback

http://www.fundacioncadah.org/web/articulo/neurofeedback-que-es-en-que-consiste-es-eficaz-para-tratar-el-tdah.html