Suicídio na Adolescência – Prevenção

Suicídio na Adolescência – Prevenção

Por Gabriel Baptista – Psicólogo – CRP 06/127340

O Brasil é o país com 8º maior número de suicídios no mundo. O fato de ser um país de proporções continentais (tem a 6ª maior população) não é muito consolo para essa estatística, principalmente considerando um segundo dado: as taxas de suicídio vêm aumentando nas últimas décadas. Essas taxas representam o número de suicídios a cada 100 mil habitantes, ou seja, elas são relativas, independem do crescimento populacional. Segundo dados da OMS e do Ministério da Saúde, são 32 suicídios por dia em nosso país – um a cada 45 minutos.

Se olharmos para um recorte de idade, conseguimos identificar grupos mais vulneráveis, pois o aumento tem sido maior entre jovens, especialmente entre crianças e adolescentes de 10 a 14 anos (é a sétima maior causa de morte na faixa etária) e jovens de 15 a 29 anos (3ª maior causa de morte). Dessa forma, vamos aprofundar nosso olhar neste fenômeno numa tentativa de entendê-lo um pouco melhor, sem a pretensão de esgotar um assunto tão complexo como este.

Para isso, convido-os à uma reflexão sobre o que leva uma pessoa a tirar sua própria vida. Segundo o Dr. Neury Botega, renomado psiquiatra da Unicamp, com forte atuação nesta área, existem dois principais “esquemas” de suicídio, ou conjuntos de fatores que podem levar a este ato. Um deles é o “Melancólico”, que combina um sentimento de desesperança com a ideação suicida, ou seja, um sentimento de que as coisas não podem melhorar, de que não há a possibilidade de se aliviar um sofrimento, que, por sua vez, leva as pessoas a pensarem no suicídio como a única possibilidade de encontrar este alívio. No suicídio Melancólico há uma reflexão e o desenvolvimento e execução de um plano para tal.

O outro esquema é o “Impulsivo”, que combina uma tendência à instabilidade de humor com uma baixa tolerância à frustração e aos sentimentos e sensações aversivas. Em outras palavras, o suicídio impulsivo aparece em momentos de uma angústia insuportável, uma dor tão grande que, novamente, não permite que a pessoa enxergue uma solução e um alívio vindouros. Novamente, o suicídio aparece como a única solução para colocar fim a essa dor. No suicídio Impulsivo não existe um “plano” para cometer o ato, o tempo entre o impulso e o ato é de segundos ou poucos minutos, e, inclusive, se o suicídio não acontece neste tempo, geralmente o impulso passa e a pessoa consegue pensar com mais clareza e reconsiderar.

Notem que, em ambos os casos, o suicídio aparece como solução para uma situação insuportável. Com isso podemos concluir um importante fato sobre este fenômeno: quem se suicida não quer acabar com sua vida, quer acabar com o seu sofrimento. O que, então, faz com que as pessoas, e os jovens em especial, não consigam enxergar outros caminhos para buscar o fim de sua dor?

Consideremos a desesperança e a intolerância a frustrações. Saber lidar com as frustrações da vida, bem como buscar soluções para seus problemas, não são habilidades inatas, que o ser humano possui “instintivamente”. Elas precisam ser aprendidas. Este é um assunto muito discutido por psicólogos que trabalham com a infância e adolescência, e por nós mesmos, aqui na página do Espaço Esperanto.

A superproteção, tão comum na criação de filhos hoje em dia, priva as crianças e adolescentes de enfrentarem situações difíceis, de serem frustrados em seus desejos e de se esforçarem para resolver os seus problemas. Privá-los dessas situações é privá-los de aprender a lidar com elas. A situação se complica, então, no momento em que os pais ou cuidadores não estão disponíveis para resolver os problemas deste jovem, situação que, invariavelmente, vai acontecer. Sem ter um repertório de resolução de desafios, esta criança ou adolescente ficará paralisado perante os desafios da vida. Vai se angustiar, chorar, gritar, brigar, mas seus problemas continuarão lá.

A recorrência deste tipo de situação pode levar a pessoa ao adoecimento, à depressão. Sem saber como resolver conflitos interpessoais, o adolescente se afastará dos amigos. Sem saber lidar com o fracasso acadêmico, aparece a evasão escolar. Sem saber se comunicar com seus pais, não saberá pedir a ajuda que precisa. É necessário, portanto, desenvolver este repertório desde cedo.

Basta, então, expor nossas crianças a contínua frustração? Também não. Ser submetido à frustração de seus desejos e deixado para lidar com este sentimento sozinho não ensinará muito à criança. É necessário, também, estar lá por ela, não para resolver todos os conflitos, mas para dar o apoio emocional necessário para lidar com os sentimentos que aparecem neste momento. Ajudar a criança entender que ela poder sentir raiva, mas não pode agredir alguém por causa disso. Ensinar que ela pode ficar triste por não ganhar um brinquedo, mas que é importante entender que nem sempre teremos tudo o que vamos desejar, e que é possível buscar se divertir de outras maneiras.

Enquanto vemos que o que é “material” vem em excesso para as crianças, e os “nãos” são poucos quando se trata disso, o afeto hoje em dia está em falta. É errado afirmar categoricamente que as crianças hoje em dia tem tudo o que elas desejam, pois muitas vezes lhes falta o que lhes é mais caro: tempo com os pais, momentos de convivência, de brincadeira, de troca de carinho, de diálogo e aprendizado. E, muitas vezes, justamente por não conseguirem ou não estarem dispostos a oferecer isso, é que os pais enchem seus filhos de presentes e momentos de lazer consumista para compensar a falta de momentos pra darem-se a si mesmos como presente para seus filhos.

Estudando o suicídio e maneiras de ajudar pessoas com ideação suicida, deparei-me com um ótimo texto no blog Comporte-Se. Nele, o autor refere posturas que são cruciais a serem adotadas na pessoa que pretende ajudar alguém com ideação suicida: respeito, empatia, conexão, compartilhamento e disponibilidade. Isso me fez pensar no quanto estes valores estão escassos em nossa sociedade. Eles não são importantes apenas na intervenção com a pessoa que pensa em tirar a própria vida, mas também como prevenção.

E como a prevenção é o meu objetivo com este texto, resumo aqui algumas orientações práticas, que podem ajudar a prevenir tanto o adoecimento psíquico quanto as tentativas de suicídio:

-Ofereça ao seu filho mais aquilo que ele necessita do que aquilo que ele quer. Uma criança e adolescente não precisa ganhar todos os presentes que deseja, e lidar com isso vai ensiná-lo que na vida seremos frustrados, mas isso não é o fim do mundo. Por outro lado, estar emocionalmente disponível e oferecer tempo de convivência é um dos melhores presentes que você poderá oferecer, pois cria oportunidades de reforçar vínculos e de amadurecimento emocional.

-Não prive seus filhos da oportunidade de enfrentar obstáculos e de tentar resolver seus próprios problemas. Isso não quer dizer que as crianças e adolescentes devem se virar sozinhos em todas as situações, mas que ter autonomia de acordo com as possibilidades de sua idade ajudará a desenvolver ferramentas para lidar com problemas maiores no futuro.

-Saiba ouvir. Muitas vezes, falar sobre suas angústias pode ser decisivo para que alguém que pretende tirar a própria vida desista de fazê-lo, ou ao menos adie seus planos e tenha tempo de ser ajudado. Para isso, devemos ouvir com empatia, não minimizar o sofrimento do outro, resistir à tentação de falar de nós mesmos e oferecer a ajuda que estejamos dispostos a dar, conforme a pessoa estiver disposta a receber (o texto do Comporte-se traz orientações mais detalhadas a esse respeito).

-Como dito anteriormente, o suicídio Impulsivo às vezes pode ser evitado se a pessoa não consegue concretizar o ato no momento de ápice da sua angústia. Dessa forma, reduzir o acesso a meios de cometer o suicídio pode salvar vidas. Se alguém na sua casa está dando indícios de querer tirar a própria vida, procure dificultar seu acesso a objetos cortantes, armas de fogo, remédios, ou outros objetos que podem ser usados para tal.

-A melhor forma de ajudar (ou de ser ajudado) é buscando ajuda profissional. Psicólogos ou psiquiatras são profissionais preparados para ajudar pessoas passando por momentos difíceis e com pensamentos suicidas. Procure profissionais em sua região. Na rede pública, é possível obter essa ajuda nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Importante frisar: a pessoa com depressão dificilmente terá forças para buscar auxílio por si só. Se você conhece alguém nessa situação, ajude-o com isso, até mesmo agendando uma consulta e levando-a até o local.

-Por fim, se você tem pensamentos suicidas, não consegue ver esperança de dias melhores ou uma forma de buscá-los, saiba que há um grupo de voluntários treinados para ajudá-lo gratuitamente, a qualquer hora do dia. O Centro de Valorização da Vida conta com atendimento gratuito online ou pelo telefone 188, para orientar, conversar ou simplesmente escutar.

 

Links úteis:

Palestra do Dr. Neury Botega – Suicídio na Atualidade: https://www.youtube.com/watch?v=l4GQav-LMWY

Palestra do Dr. Neury Botega – Comportamento Suicida em Jovens: https://www.youtube.com/watch?v=OmJDOcrD2gE

Como ajudar alguém que sofre com ideações suicidas? https://www.comportese.com/2016/12/como-ajudar-alguem-que-sofre-de-ideacoes-suicidas

Centro de Valorização da Vida: https://www.cvv.org.br/