Os vaporizadores e os adolescentes

Os vaporizadores e os adolescentes

Por Gabriel Baptista – Psicólogo – CRP 06/127340

 

A adolescência é um período de experimentação. O cérebro do adolescente está passando por transformações, sofrendo mudanças para tornar-se um cérebro adulto. Sem entrar em detalhes técnicos, podemos dizer que, devido à essas mudanças, o adolescente tem mais dificuldade em encontrar prazer em atividades cotidianas, uma menor percepção de risco, maior dificuldade de controlar seus impulsos e maior valorização da opinião do grupo. É claro que as características dessa fase vão muito além das citadas, mas essas são as que mais nos interessam para entendermos um fenômeno comum entre os adolescentes: a busca pelo prazer, em especial, através das drogas.

É comum que haja curiosidade sobre o uso das drogas, ou Substâncias Psicoativas (SPAs). No entanto, nem todo adolescente escolherá usá-las. São muitos os fatores que determinam o comportamento de experimentar ou não alguma SPA, mas, um que conta fortemente para que o jovem resista a essa vontade, é a noção de que as drogas podem ser perigosas. Pode estar aí a razão pela qual uma nova tendência está surgindo entre os adolescentes, o uso de vaporizadores. A maioria dos jovens acredita que usar um vaporizador causa pouco ou nenhum prejuízo para a saúde, tornando-o praticamente inofensivo. Essa noção está equivocada.

Mas o que é o vaporizador, também conhecido como vape ou vaper? Na verdade não se trata de uma nova droga, mas uma nova e moderna forma de se consumir produtos derivados do tabaco ou similares. O vaporizador consiste num aparelho eletrônico composto por uma câmara que é preenchida por um líquido conhecido como juice. Este é aquecido e, ao ser transformado em vapor, ingerido pelo usuário, tal qual a fumaça de um cigarro convencional.

Qual é, então, a composição do juice? Essa pergunta é um pouco mais complicada de se responder. O juice geralmente é composto de água, glicerol, compostos aromatizantes e outras substâncias. A maioria deles contém nicotina, a mesma substância nociva e extremamente viciante presente nos cigarros. Alguns juices não contém nicotina, o que contribui para a percepção das pessoas de que seu consumo é seguro, o que não condiz com a realidade, como explicarei mais à frente.

Qual é, então, a verdadeira extensão do perigo que o uso dos vaporizadores representa? Infelizmente, ainda não temos a resposta definitiva para essa pergunta. O surgimento dos vapers é relativamente recente, o que significa que ainda existem poucos estudos a seu respeito. Ainda faltam, por exemplo, mais estudos longitudinais, aqueles que acompanham indivíduos através dos anos para medir as consequências de determinado hábito em longo prazo. Vamos nos lembrar de que, até a década de 70, ainda não se sabia quão perigosos os cigarros poderiam ser, e mesmo alguns médicos defendiam que eles eram inofensivos ou até benéficos para a saúde! Foram necessários anos e anos de estudos para que se entendesse o grande potencial destrutivo do tabaco.

Mas existem, sim, alguns estudos sobre os efeitos do uso de vaporizadores no organismo. Alguns são contraditórios, muitos são inconclusivos, mas alguns achados tem sido consistentes e podem ser considerados confiáveis.

O primeiro deles é: os vaporizadores não são inofensivos. Estudos americanos indicam potencial cancerígeno no vapor gerado pelos aparelhos, bem como potencial para causar infecções pulmonares. Esses efeitos são mais fortes no vapor das soluções que contém nicotina, mas acontecem também nas que não contêm, pois essas soluções também possuem substâncias danosas ao pulmão, como a acroleína. Outros estudos, realizados na Espanha, indicam que metais tóxicos derivados do próprio aparelho podem mesclar-se ao juice e serem inalados, oferecendo também riscos á saúde do pulmão.

Além disso, o vapor dos aparelhos eleva a frequência cardíaca e pressão sanguínea, embora faltem dados sobre esses efeitos no longo prazo.

Estudos indicam que os cérebros dos adolescentes são mais suscetíveis aos danos causados pela nicotina (assim como por outras SPAs), e também tem mais chances de se viciarem. A fumaça dos vaporizadores, como a dos cigarros convencionais, pode causar uma ampla variedade de danos ao cérebro do feto quando inalada por mulheres grávidas.

Além do fato de ser uma invenção recente, outro fator que dificulta estudos conclusivos a respeito dos exatos efeitos de se usar vaporizadores é a variedade de modelos de aparelhos e juices, que são produzidos de maneiras não padronizada. Assim, cada tipo de juice pode conter diferentes substâncias químicas, como solventes e flavorizantes, bem como o aquecimento destas substâncias podem produzir compostos ainda mais perigosos. A taxa de nicotina vaporizada usando-se um mesmo juice em aparelhos diferentes também pode variar.

Apesar das evidências de danos causados pelo uso de vaporizadores, seus defensores afirmam que os aparelhos podem ser uma ferramenta de apoio para fumantes que desejam abandonar o tabagismo, seja substituindo os cigarros pelos vapes como estratégia de redução de danos, seja usando-o como passo intermediário para largar definitivamente o fumo. Este é outro ponto controverso.

Apesar dos vapes ofereceram alguns dos riscos do cigarro, e outros riscos próprios, a maioria dos estudiosos concorda que eles são mais seguros do que os cigarros de tabaco convencionais. O fato de o vapor ser gerado sem a combustão significa que uma grande quantidades de substâncias nocivas resultantes deste processo de combustão (como o alcatrão e o monóxido de carbono) deixam de estar presentes, o que reforça a ideia de uma estratégia eficiente de redução de danos.

Os pontos de discordância surgem em relação ao uso dos aparelhos como “porta de saída” do tabagismo. Alguns especialistas concordam, outros, porém, apontam o fato de que, diferente de outros recursos comuns para este fim, como os chicletes ou adesivos de nicotina, os vapes muitas vezes trazem um sabor agradável que podem ajudar a manter o hábito de usá-los, resultando apenas na substituição de um vício por outro (menos prejudicial, no entanto).

Vale ressaltar: mesmo os defensores do uso dos vaporizadores para a cessação do tabagismo ou para reduzir danos afirmam que utilizar os aparelhos, mas continuar também fumando cigarros, não trará nenhum benefício.

Em se tratando do uso por adolescentes, existe também o outro lado dessa moeda: existem evidências iniciais que apontam que adolescentes que usam vaporizadores tem uma chance maior (do que os adolescentes que não o usam) de fumarem cigarros no futuro.

Essa informação é confirmada por estudos americanos e ingleses, e trazem uma grande preocupação. A taxa de tabagismo na maioria dos países vem se reduzindo nas últimas décadas, feito alcançado devido a uma variedade de campanhas bem sucedidas de conscientização dos seus malefícios, bem como medidas de restrição do consumo (como sua proibição em locais fechados ou o estabelecimento de um preço mínimo). Atualmente, no entanto, muitos jovens que não fumariam cigarros acabam por vaporizar, devido à menor percepção de risco e ausência de regulamentação. Este gráfico de um estudo americano dá uma clara noção deste fenômeno:

Enquanto a porcentagem de adolescentes que fumam cigarros (barra azul) vem diminuindo consistentemente desde 1995, em 2014 as porcentagens somadas destes adolescentes com aqueles que vaporizam (barra laranja) e aqueles que vaporizam e fumam (barra vermelha) superam consideravelmente o número de fumantes de 10 anos antes.

Infelizmente, ainda não existem dados deste tipo em relação aos adolescentes brasileiros, então não podemos saber o alcance do hábito de vaporizar entre nossos jovens. Mas podemos olhar para alguns estudos internacionais para tentar entender porque os vapes tem tanto apelo entre os jovens.

Uma pesquisa canadense mostra que os adolescentes que usam vaporizadores dizem fazê-lo por achar “descolado”, divertido e “algo novo”. Já os americanos apontam como motivos a curiosidade e a ideia de que o vape é menos danoso, viciante e fedido do que os cigarros, além de serem mais fáceis de se obter. Outro grande apelo existente neste hábito é o fato de que boa parte do juices tem sabores, e são estes os preferidos pelos jovens. Os sabores podem ser tão variados quanto menta, café, álcool, frutas, chocolate, gin tônica e até mesmo donut.

Enquanto agências de controle foram bem sucedidas em diminuir a glamourização do cigarro, o mesmo não pode ser dito dos vapes. Os aparelhos geram um volume grande de fumaça, maior do que o gerado pelos cigarros ou mesmo pelos narguilés, e podemos encontrar facilmente na internet vídeos de pessoas criando efeitos visuais complexos com o vapor, como padrões intrincados de anéis de fumaça, o que constitui outro elemento de apelo entre adolescentes.

Sendo a popularização dos vaporizadores um fenômeno novo, é difícil saber como este hábito se desenvolverá e o impacto que será por ele gerado. Entre controvérsias, evidências de malefícios e benefícios, o que podemos concluir, sem sombra de dúvida, é a importância de se atentar para o consumo pelos adolescentes, com grande potencial de dano. Para evitar seu crescimento, a saída certamente não é a proibição, mas a eficiente regulamentação e fiscalização da produção e comércio dos vaporizadores e juices. Desta forma, eles serão produzidos segundo padrões mínimos de segurança e estarão disponíveis apenas para adultos que queiram optar pelo seu uso, e não para crianças e jovens que fazem pouca ou nenhuma ideia dos riscos aos quais estão se submetendo.