Meu filho é hiperativo! Será mesmo?

Meu filho é hiperativo! Será mesmo?

Por Renata Lela – CRP 06/68519

Muito tem se falado sobre a hiperatividade atualmente, existe uma tendência na sociedade atual a rotular toda criança que seja mais agitada como hiperativa, mas é necessário tomar muito cuidado com tais afirmações, pois a hiperatividade faz parte de um transtorno cujo nome, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), tem sido usado hoje em dia para justificar qualquer comportamento mais agitado em uma criança. Nunca antes se prescreveu tanta Ritalina ou medicamentos da mesma classe dos metilfenidatos. Agora a dúvida que resta é: será mesmo que toda criança que é agitada, é hiperativa? Será que todo comportamento de desatenção é TDAH?

O TDAH é um transtorno sério que acomete cerca de 5 a 10% da população escolar e que traz consequências bastante prejudiciais na vida da criança e do adolescente. Não somente a vida escolar tende a ser afetada, mas também a vida familiar e social. Aspectos como autoestima, autoconfiança, entre tantos outros tendem a ser afetados e existe uma chance muito grande de na maioria dos casos, o transtorno não estar sozinho.

Mas afinal de contas, o que é o TDAH, como se diagnostica e quais as melhores formas de tratamento? Como saber se a agitação que a criança apresenta é normal ou faz parte de um quadro maior como o transtorno?

O TDAH é caracterizado por sintomas que envolvem um tripé nas áreas de atenção, hiperatividade e impulsividade, em todo o circuito de relacionamento da criança ou do adolescente. Dentro da área da atenção, eles costumam ser distraídos, com tendência a esquecer muito as coisas, não conseguem se organizar, perdem muitos objetos, estão facilmente no “mundo da lua”, apresentam dificuldades para memorizar o que foi aprendido, entre outras dificuldades. Na área da hiperatividade, tendem a ser agitados em excesso, não conseguem terminar o que começam, tem dificuldades em persistir, não param sentados, estão em contínuo movimento e acabam até mesmo demonstrando agitação durante o sono, na maioria dos casos. No quesito impulsividade, apresentam dificuldades com autocontrole, autorregulação, costumam tomar decisões sem pensar com tendência a se arrepender depois e envolvem-se muito em conflitos, discussões e até mesmo em atitudes mais agressivas para resolver impasses.

Ele pode ser classificado em três subtipos: subtipo predominantemente desatento, subtipo predominantemente hiperativo/impulsivo, ou subtipo combinado (forma mais comum vista em consultório). Em cada um dos subtipos existe, como o próprio nome já diz, a predominância dos comportamentos descritos no quadro e na forma combinada, há uma combinação de vários sintomas das três áreas. Mas, por haver predominância, não quer dizer que os outros sintomas não possam estar presentes, apenas que existem em menor intensidade do que aqueles que predominam. E, além das descrições em subtipos, torna-se importante saber que o TDAH dificilmente vem sozinho: o transtorno quase sempre vem acompanhado de outros transtornos em comorbidade, que é como chamamos quando existem transtornos combinados. Os transtornos que mais possuem comorbidades com o TDAH são, o Transtorno Opositor Desafiador, Transtornos de Ansiedade e Transtornos de Humor, além de Dificuldades de Aprendizagem, que podem surgir como comorbidade ou consequência do transtorno, e abuso de substâncias, como álcool ou outras drogas, caso o mesmo não seja devidamente tratado.

As causas do transtorno ainda não estão muito bem definidas, mas já existem alguns estudos que comprovam que fatores genéticos, fatores neuroquímicos e complicações na gravidez e parto podem causar o TDAH. Fatores sociais, embora não possam sozinhos causar o transtorno, podem agravá-lo ou criar uma maior propensão ao desenvolvimento do mesmo. Em suma, o que se sabe, atualmente é que o transtorno afeta significativamente a região do córtex pré-frontal cerebral, área tão importante que coordena todas as funções executivas cerebrais e que é responsável pelo planejamento, organização e controle dos impulsos. Sabe-se que no portador de TDAH, tais funções são bastante comprometidas.

O diagnóstico do transtorno deve ser feito em conjunto com vários profissionais, como médicos neurologistas, psicólogos, psicopedagogos e neuropsicólogos, levando em conta dados trazidos pela família da criança ou do adolescente, informações colhidas na escola e em outros ambientes em que eles estejam inseridos. É muito importante levar em consideração que esse diagnóstico não é feito somente por um profissional, e nenhum professor consegue determinar se uma criança ou um adolescente possui o transtorno apenas pela convivência e observação em sala de aula. São necessárias avaliações clínicas consistentes, onde junta-se o histórico do paciente, o que a família e a escola percebem, avaliações que podem ser feitas por neuropsicólogos e até mesmo exames que descartem outros diagnósticos que podem possuir sintomas parecidos. Não existem exames que possam confirmar o diagnóstico de TDAH, mas é importante realizar alguns exames que possam descartar outras suspeitas. A avaliação do transtorno baseia-se em critérios diagnósticos descritos em códigos e classificações internacionais de transtornos como o DSM e, no caso do Brasil, o CID 10.

Somente depois de concluído o diagnóstico, é que pode ser indicado o melhor tratamento para cada caso, que pode ser medicamentoso, terapêutico ou a associação dos dois. Existem também alguns tratamentos alternativos que podem funcionar como tratamentos principais ou coadjuvantes. O que é importante salientar é que o uso de medicação somente não é funcional, pois resolve o quadro enquanto a mesma está sendo utilizada, mas, ao ser retirada, o sintomas voltam a aparecer. O processo terapêutico é imprescindível no tratamento do transtorno.

O TDAH tende a evoluir para uma melhora caso o tratamento aconteça de forma adequada, mas não existe cura, por isso, a criança ou o adolescente portador do TDAH irá conviver com os sintomas até a idade adulta com características diferentes, crianças tendendo a ser mais agitadas, adolescentes mais impulsivos e adultos mais desatentos, por exemplo. Assim, o portador do transtorno deve aprender a conviver com essas dificuldades, ordená-las, e fazer com que eles não prejudiquem tanto assim a vida como um todo. Por isso, a importância do processo terapêutico, que faz com que a criança ou o adolescente entenda o que é o transtorno, como pode lidar melhor com os sintomas e, incluindo várias mudanças, dicas e formas de se organizar em sua vida para conseguir aprender a conviver com o TDAH e a não permitir que ele prejudique tanto assim sua vida.

Diante de toda a complexidade do que foi tratado nesse texto que somente se propõe a esclarecer algumas dúvidas, sem pretensão alguma de ser um texto definitivo sobre o tema, compreende-se porque não podemos classificar toda criança com um comportamento mais agitado como portadora de TDAH ou hiperativa. É necessário muito cuidado para que possamos realizar um diagnóstico. E diante de qualquer dúvida ou suspeita, não devemos hesitar em buscar a ajuda de um profissional para que a avaliação aconteça de forma adequada.