Infância: fase de aprender

Infância: fase de aprender

Por Gabriel Baptista – Psicólogo – CRP 06/127340

 

É consenso dificilmente refutado, por leigos ou especialistas, que a infância é uma fase de aprendizado e descobrimento do mundo. O próprio conceito de “escola” é a prova disso: um local aonde as crianças vão, praticamente todos os dias, para aprender. Quase todas as culturas possuem escolas ou espaços semelhantes, e o fato de a maioria das crianças passarem uma boa parte de seus dias nesses ambientes demonstra a importância dada para esse espaço e, consequentemente, para o aprendizado.

Conforme elas crescem, o ambiente escolar parece deixar de ser suficiente para fornecer todo o aprendizado que consideramos necessário para a vida de nossos filhos. Fazemos matrículas em aulas de idiomas, de música, de desenho, de esportes. Estimulamos os pequenos a assistir programas de TV ou jogar jogos considerados “educativos”. Exigimos boas notas e dedicação intensa aos estudos.

Com tudo isso, estamos focando apenas em um tipo de aprendizado, e ignorando outros, e isso pode ser perigoso. Aulas são importantes, o contato com um professor, profissional especializado em transmitir o conhecimento, é parte essencial do processo de aprender mais sobre o mundo e seus fenômenos. Mas esquecemo-nos de que o aprendizado está, na verdade, em todo lugar. Está em cada contato com o mundo, em cada relação com outras pessoas e animais, em cada exploração do meio ambiente, em cada brincadeira despretensiosa. É até curioso falarmos sobre jogos “educativos”, pois, para uma criança pequena, todo jogo, toda brincadeira tem algo a ensinar.

Crianças aprendem, acima de tudo, observando. Aprendem pelo exemplo. Aprender regras de conduta e civilidade na escola é importante, mas de nada adianta se a atitude dos pais da criança não condiz com esses valores. Exigir que seus filhos o respeitem terá pouca eficácia se você não tem uma palavra de carinho para com seus próprios pais. Uma mãe que insiste para que sua filha peça “por favor”, mas é rude com o balconista de uma loja, passa para essa filha mensagens confusas e valores conflitantes. Se a infância é uma fase de aprendizado, esse aprendizado é incessante, não funciona apenas na hora em que queremos ensinar algo aos pequenos, mas em todos os momentos em que estamos juntos deles.

Aprender é viver, viver é aprender. Brincar, passar tempo com a família, jogar jogos (tanto virtuais quanto materiais), estar com os amigos, ou simplesmente ter tempo para fazer aquilo que te dá vontade, aquilo que te dá mais prazer, tudo isso ensina tanto quanto (ou mais) que uma aula. Nessas atividades as crianças desenvolvem sua motricidade, cognição, memória, habilidades sociais e de resolução de problemas, expressão de sentimentos, autoestima e autoconfiança.

Se a infância é uma fase de aprendizado, valorize a infância valorizando também o aprendizado do dia a dia, pois nem todas as lições da vida estão nos livros.