Histórias em Quadrinhos como Arte e Ferramenta Didática

Histórias em Quadrinhos como Arte e Ferramenta Didática

Por Gabriel Baptista – Psicólogo – CRP 06/127340

Assim como o super-vilão que muda de lado e começa a lutar pelo bem e a justiça, as histórias em quadrinhos já ocuparam diferentes lugares no imaginário popular.

Nos anos 50, o conservadorismo norte-americano chegou até mesmo a forçar uma ligação entre a leitura de gibis e a delinquência juvenil, hipótese já devidamente desmistificada. Absurdos à parte, ainda resiste algum preconceito a respeito das histórias em quadrinhos, consideradas por muitos como uma forma de arte menor, sem profundidade. Felizmente, esse tipo de preconceito vem sendo desconstruído a cada dia, e, hoje, as HQs cada vez mais conquistam o respeito que merecem.

Uma imagem comum a respeito dos gibis é a de que eles seriam coisa de criança. Talvez essa ideia venha do fato das obras mais populares, que encontramos em qualquer banca de revistas, serem voltadas para crianças ou adolescentes. É o caso da Turma da Mônica, revistas da Disney, e de boa parte das histórias de super-heróis. Mas “história em quadrinhos” nada mais é do que um formato, uma maneira específica de se contar algo. Afirmar que gibi é coisa de criança é tão absurdo quanto dizer que “livro é coisa de criança”, ou “filmes são coisas de criança”. A mídia que alia texto escrito e imagens pode ser usada de incontáveis maneiras, possibilitando a criação de qualquer tipo de história, seja ela de humor, terror, drama, biográfica, jornalística ou fantástica.

Entre essas inúmeras possibilidades, destaca-se o papel importantíssimo que as HQs podem assumir na alfabetização e no desenvolvimento de um gosto pela leitura em crianças e adolescentes. Quantas vezes não ouvimos alguém dizer que não gosta de ler? Sempre que ouço isso, penso que a pessoa simplesmente ainda não encontrou um material de leitura que lhe fosse suficientemente interessante. E é aí que os gibis podem fazer a diferença. A aliança entre texto e imagem costuma chamar a atenção até mesmo de jovens que não se interessam por livros. Intercalar a leitura do verbal com a apreciação e entendimento do não-verbal também torna o envolvimento com o gibi menos cansativo do que pode ser a leitura de um livro por um leitor iniciante.

Além disso, entender o que se passa num gibi é uma atividade mais complexa (o que não quer dizer mais difícil) do que entender um texto convencional. E isso é muito positivo, pois treina o novo leitor a prestar atenção nos detalhes, se esforçar para relacionar o texto ao contexto: além de ler o que há no balãozinho, ele vai precisar observar os elementos visuais do quadro, decifrar as expressões faciais dos personagens, “traduzir” recursos visuais como riscos que indicam movimentos ou estrelinhas orbitando a cabeça do Pateta após ele levar uma pancada, indicando que ele está sentindo dor.

O educador competente pode tirar proveito do interesse que as histórias em quadrinhos costumam despertar. Fazer uma leitura conjunta com seus alunos, discutir os elementos existentes em cada quadro, estimular uma reflexão a respeito do que cada um entendeu da história, trabalhar até mesmo a criação de uma historinha com as crianças e adolescentes. São inúmeras as formas de se utilizar da arte sequencial em sala de aula. Funções como a concentração, o raciocínio e a criatividade podem ser estimuladas dessa forma. Aliás, o próprio reconhecimento de expressões faciais vai além de um simples elemento para o entendimento da história, pois entender e reconhecer as emoções é uma habilidade muito importante que as crianças precisam adquirir. Psicólogos se deparam frequentemente na clínica com casos de crianças que não aprenderam a lidar adequadamente com suas emoções, e aprender a compreendê-las e nomeá-las é o primeiro passo na educação emocional.

Há alguns anos, talvez você pudesse ouvir de algum especialista por aí que os gibis formam “leitores preguiçosos”, mas hoje sabemos que a maioria dos leitores de quadrinhos consome também outros tipos de literatura.

E se você ainda acha que histórias em quadrinhos só podem conter histórias “rasas” e sem relevância cultural ou social, talvez mude de ideia ao conhecer as grandes obras que discutem com maestria temas como os conflitos no oriente médio (“Palestina”, de Joe Sacco) e a violência urbana e a pacificação das gangues de Nova York nos anos 70 (“Ghetto Brother”, de Julian Voloj e Claudia Ahlering). Minha sugestão: comece por “Maus”, um dos mais emocionantes relatos de sobrevivência no holocausto, contado com maestria por Art Spiegelman, filho de sobreviventes de campos de concentração nazistas. Uma obra tão incrível que foi a primeira história em quadrinhos a ganhar um Prêmio Pulitzer (prêmio de excelência em jornalismo), em 1992.