Geração Mimada? – Parte 1

Geração Mimada? – Parte 1

Por Gabriel Baptista – Psicólogo – CRP 06/127340

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu pelo menos uma dessas frases:

“A geração atual é muito mimada!”

“As crianças de hoje em dia não sabem se comportar!”

“Na minha época a gente respeitava os pais e professores, hoje não existe mais respeito!”

Provavelmente você já escutou frases com esse teor muitas vezes nos últimos anos. Geralmente proferidas por adultos com mais de 30 anos, quase sempre se referindo a crianças que não são seus próprios filhos e quase nunca acompanhadas de uma reflexão sobre o que pode ter ocasionado essas mudanças no comportamento das crianças e adolescentes de hoje.

Seria possível que as crianças hoje em dia nasçam mais propensas a um tipo de comportamento que denominamos “mimado” ou “mal educado”? Não sou geneticista, mas acho pouco provável que uma mudança genética de larga escala tenha causado tais alterações no DNA do homo sapiens do século XXI. O que mudou, então, nos últimos tempos? Muita coisa: a tecnologia, a economia, o ritmo e o estilo de vida da maior parte da sociedade, etc. Tendo a chamar a junção de todos esses aspectos de cultura. Com tantas mudanças acontecendo tão rápido, a cultura evoluiu num ritmo incrível, e isso afeta a vida de todos nós de várias formas.

Conforme o ser humano se desenvolve, manifesta potenciais inatos relativos ao seu código genético, mas crescer dentro de uma sociedade implica em ser, também, afetado diretamente por essa sociedade, seus valores, seus modos de vida, enfim, sua cultura. Chegamos, então, ao ponto que queríamos: as mudanças culturais influenciam na forma como criamos nossos filhos, e estar exposto a um contexto específico faz com que a pessoa desenvolva-se de uma forma específica. Por mais que cada indivíduo e cada família tenha seu próprio jeito, seus próprios valores, é difícil escapar a um contexto mais amplo que afeta a todos nós.

Esse texto tem por objetivo discutir de que maneira a forma como estamos criando nossas crianças e adolescentes influencia no modo de agir deles. O objetivo maior é parar de apontar o dedo para características que desprezamos, e incentivar uma autocrítica sobre qual nosso papel no desenvolvimento dessas características, e o que poderíamos fazer para mudar esse cenário.

Se você já ouviu uma das frases que mencionei no início do texto, pode achar esse texto interessante. Se você costuma dizer coisas desse tipo, recomendo ainda mais a leitura.

02

 

 

Correria, correria!

Vivemos numa época na qual parece que o tempo está se encurtando. Quem nunca teve a sensação de que as 24 horas do dia não são suficiente para fazer tudo aquilo que precisamos? Tempo para fazer tudo o que queremos, então, é algo que boa parte das pessoas apenas sonha em ter. Cargas horárias extensas no trabalho, a necessidade de ir fazer compras para a casa, um (importante) tempo dedicado para atividades físicas, muitas vezes algumas horas de estudo para se manter competitivo no mercado de trabalho… soma-se a isso, nas cidades grandes, o tempo de deslocamento entre cada uma dessas atividades… quanto tempo sobra para dedicarmos à convivência familiar?

Nesse cenário, muitas vezes a criação dos filhos acaba “terceirizada”, ou seja, feita com o auxílio de um parente, de uma babá, de uma creche ou escolinha. Dentre as diversas consequências desse fenômeno, podemos citar um distanciamento maior entre pais e filhos, dificultando o estabelecimento da autoridade do pai e da mãe, o conflitos de valores decorrente das diversas influências às quais essa criança está submetida (“o vovô deixa, a mamãe não deixa”), e, mais importante para essa nossa análise, uma tendência a permissividade por parte dos pais.

Seja por um sentimento de culpa por passar muito tempo longe dos filhos, seja por uma vontade de que a pouca interação que podem ter no dia seja positiva, muitos pais acabam adotando uma postura de atender a todos os desejos das crianças. Chegam em casa com presentes, permitem que os filhos comam o que quiserem, deixam de reagir adequadamente a um mau comportamento para não causar um conflito e estragar o pouco tempo que tem juntos. As crianças, tendo seus desejos atendidos tão prontamente, ou aprendendo que podem fazer o que quiserem sem a reprimenda dos pais, acabam por crescer sem conhecer a frustração, sem entender que nossas vontades não podem passar por cima das vontades e do bem estar dos outros. Mais pra frente discutiremos porque isso é péssimo para a vida futura dessa criança.

Outra consequência que vem do ritmo acelerado e da competitividade que regem nossa sociedade atualmente é que, cada vez mais, os pais querem preparar seus filhos desde cedo para se sair bem nessa sociedade, e acreditam que o ensino de diversas competências, através das mais diversas aulas e cursos, é o caminho para fazê-lo. É comum hoje vermos crianças de menos de 5 anos que, durante a semana, tem, além da escolinha, aulas de idiomas, de música, prática de algum esporte, entre outras atividades da moda. Sobra cada vez menos espaço para brincar livremente e para uma atividade muito importante para um ser humano em formação: fazer nada. Sentir tédio. Sim, isso é muito importante para o desenvolvimento da criança! Parece estranho? Continue lendo e você vai entender.

03

 

 

À prova de tédio

Já falamos sobre o quanto é difícil ter um tempo para parar em casa hoje em dia. Infelizmente, só o fato de estar em casa não quer dizer, necessariamente, sentar e relaxar, aproveitar com os filhos. Afinal, nossas obrigações diárias não acabam quando chegamos no lar. Fazer comida, limpar a casa, lavar roupa e louça, são muitas as atividades diárias que tomam nosso tempo mesmo quando estamos no mesmo ambiente que os filhos. Além disso, os pais também querem, e merecem, um tempo para si mesmos. Assistir um filme, conversar com um amigo, ou apenas descansar um pouco. E tudo isso fica muito mais difícil de fazer com crianças demandando nossa atenção. E aí entra em cena a distração número 1 das crianças do século XXI: os dispositivos eletrônicos.

Celulares, tablets, video-games, um universo de possibilidades está permanentemente ao nosso alcance. É difícil ir num ambiente onde há crianças e não vermos pelo menos algumas delas usando um aparelho do tipo. Nos impressionamos com a facilidade que uma criança de dois anos tem para mexer no celular que nós mesmos ainda não dominamos completamente. E nos impressionamos mais ainda com o poder quase hipnótico que tais dispositivos exercem sobre os pequenos. O resultado é que a apresentação do celular para as crianças virou uma panaceia, a solução para todos os inconvenientes que os pais possam ter.

Se o filho não para de pedir a atenção da mãe enquanto ela conversa com um amigo, ela entrega o celular com um joguinho para a criança, e perde a oportunidade de ensinar para ela que ela deve respeitar e esperar enquanto dois adultos estão conversando. Se uma criança aprendendo a engatinhar insiste ir para um canto perigoso da sala, ao invés de bloquear o caminho ou redirecionar a criança, o pai saca o tablet e a coloca pra assistir a Galinha Pintadinha, e assim cessa uma atividade importantíssima para o desenvolvimento motor. Com o tempo, a criança, que antes se interessava em tentar conversar com os adultos, explorar o ambiente, correr e brincar, aprende a pedir os aparelhos para se entreter a qualquer momento, em qualquer situação. Uma distração permanente.

As consequências desse padrão de comportamento são muitas. Para nossa análise sobre a “geração mimada”, a mais relevante delas é a criação de uma geração incapaz de lidar com o ócio. Assistir um vídeo engraçado ou jogar um jogo sempre vai ser mais divertido do que ficar sem fazer nada, e as crianças que tiverem livre acesso ao celular ou tablet vão escolher a opção mais divertida. Incapazes de criar outras brincadeiras, a criança entediada vai pedir o celular do pai, e se não tiver seu pedido atendido, vai emburrar, reclamar e espernear. Cada momento de ócio desacompanhado dos eletrônicos trará sofrimento para uma criança que não conhece outras formas de se divertir.04

 

Mas a criança precisa de momentos de “nada pra fazer”. É quando ela vai exercitar sua criatividade, procurar no ambiente uma forma de se distrair, usar sua imaginação para encontrar novas maneiras de brincar e se divertir. Afinal, porque ela vai fingir que a vassoura do papai é um cavalinho, se pode se colocar no papel de um cowboy em dezenas de aplicativos diferentes? A criatividade e imaginação são importantes para o desenvolvimento do ser humano. Não prive suas crianças de momentos nos quais ela possa desenvolvê-los.

É claro, isso não quer dizer que crianças não devem ter exposição nenhuma a aparelhos eletrônicos. A tecnologia e os dispositivos tecnológicos são parte essencial da vida moderna, e todos nós precisamos saber lidar com eles. Qual seria, então, a recomendação a esse respeito? Não é uma pergunta fácil de responder, e isso foge um pouco do tema desse texto, mas, para não deixar papais e mamães totalmente desamparados sobre esse assunto, podemos recomendar:

  1. a) evite totalmente a exposição direta e intencional a telas em crianças até 2 anos de idade;
  2. b) após os 2 anos, ela pode começar a ser introduzida aos dispositivos eletrônicos, mas de forma controlada e limitada, não mais de uma hora por dia, no início;
  3. c) você não é um pai ou mãe terrível porque às vezes procura distrair seu filho com o celular. Apenas evite transformar isso num hábito. Livrinhos divertidos e outros brinquedos podem ter essa mesma função, e vão contribuir para o desenvolvimento dos pequenos de forma muito mais saudável.

 

(Ainda não acabou! Em breve confira a segunda parte do texto aqui, no site do Espaço Esperanto.)