Geração Mimada? – Parte 2

Geração Mimada? – Parte 2

Por Gabriel Baptista – Psicólogo – CRP 06/127340

Brincadeira de criança

Existe uma outra razão pela qual os jogos e distrações eletrônicas estão tão presentes na vida das crianças de hoje. Devido à falta de segurança na maioria das cidades e à falta de tempo dos pais, entre outras razões, as crianças estão sendo criadas passando muito tempo dentro de casa. Confinados assim, acabam existindo poucas opções de lazer para os pequenos. O vídeo game, o Netflix e as demais opções de lazer digital acabam, então, predominando no cotidiano infantil.

Os problemas advindos dessa situação são grandes. As crianças precisam brincar usando o corpo todo, precisam exercer sua curiosidade e imaginação explorando seu ambiente, precisam ter contato com a natureza. Se elas forem privadas de tudo isso, no futuro enfrentarão problemas como um precário desenvolvimento motor (ou seja, o controle do próprio corpo), dificuldade em usar a criatividade para solucionar problemas, dificuldades até mesmo em compreender o mundo material, a natureza, a forma como as coisas funcionam e eventos se relacionam.

Além disso, se a criança não participa de brincadeiras que envolvam outras crianças, sua capacidade de estabelecer interações não se desenvolve. Na brincadeira é preciso interagir, olhar e decifrar o comportamento do outro, entender o que ele está sentindo, entender que o que fazemos afeta o coleguinha. Nessas brincadeiras as crianças aprendem a negociar, a respeitar regras, aprendem a cooperar.

A superexposição a dispositivos eletrônicos pode, até, estar relacionada à causa de boa parte da procura por clínicas de psicologia infantil, a ansiedade. No mundo eletrônico, tudo está a um clique de distância. Para cada toque que damos na tela, somos recompensados de alguma forma. Fora dos aparelhos, contudo, não funciona assim. Se a criança que passa horas jogando num tablet tem todos seus comandos respondidos, podemos realmente nos espantar quando ela abre o maior berreiro ao ter um pedido negado pela mãe?

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À prova de frustração

Como comentamos anteriormente, ter todos seus desejos atendidos, poder comer só o que deseja, brincar com o quer na hora que quer, faz com que a criança cresça sem experimentar a frustração. Todos passamos por situações frustrantes diariamente, e sabemos que não é agradável. Qual o problema, então, de querer proteger os pequenos desses desagrados?

É mais ou menos o princípio da vacina: uma pequena quantidade de um agente infeccioso é usada para que seu corpo aprenda a defender-se dessa ameaça. Passar por pequenas frustrações na infância é essencial para que, ao crescer, o adolescente, o adulto saiba lidar com frustrações maiores. Como vai reagir um jovem que perde um emprego, se, quando criança, nunca precisou lidar com a perda de algo, já que seus pais lhe davam novos brinquedos toda vez que ele quebrava os antigos?

A proteção que os pais tem para com seus filhos as vezes vai além. Não deixam seu filho correr porque poderia cair e se machucar. Fazem o dever de casa de sua filha, pois não querem que ela leve uma bronca da professora. Mas, sem passar por esses desgostos, como vai esse menino aprender a tomar cuidado em suas atividades, como aprenderá essa menina a ter responsabilidade para com suas obrigações? Vemos hoje absurdos como faculdades particulares que fazem reuniões de pais para falar sobre o desempenho de seus filhos. Isso vem como uma resposta a um padrão observado de jovens que, com 18, 19 anos, ainda são adolescentes que não conseguem nem começar a assumir as rédeas de suas próprias vidas. É fácil condenar esses indivíduos e chamá-los de mimados, mas não se vê por aí muitos questionamentos acerca da criação que receberam em casa para ficarem assim.

As consequências de nunca ouvir um “não” na infância podem ser ainda mais perigosas. Em muitas faculdades pelo Brasil afora aumentam os relatos de violência sexual, cometidas por jovens que não aceitam ficar sem ter aquilo que querem. Vidas são perdidas em acidentes envolvendo jovens dirigindo de forma inconsequente, pois sabem que a consequência legal dificilmente chegará para eles, graças à proteção de seus pais.07

 

Mesmo que não cheguemos a consequências tão trágicas, é necessário saber que, ao privar seu filho de sentir frustração, os pais estão apenas aumentando o nível de sofrimento ao qual esse filho estará sujeito no futuro. Quando a atual geração de adultos ainda era criança, um exercício frequente para desenvolver a paciência era ter que esperar até a hora de nossos desenhos preferidos, e assim inventávamos maneiras de driblar o tédio da espera. Se hoje, com Netflix, Youtube, e outros serviços de streaming, as crianças nem mesmo precisam lidar com essa espera, como elas vão reagir ao ter que passar meia hora numa fila de banco?

Precisamos nos atentar para evitar a superproteção. Saber que ralar o joelho num tombo pode ensinar valiosas lições para os pequenos. Aprender a lidar com nosso próprio sofrimento observando o sofrimento de nossos filhos, e estar lá para ampará-los e confortá-los perante uma situação difícil, contendo nosso anseio de impedi-los de passar por qualquer tipo de provação.

Permitindo que nossos filhos sofram pequenos machucados, pequenas frustrações, estamos ensinando-os que é possível se curar, que ser frustrado é desagradável, mas que faz parte da vida, e que podemos dar a volta por cima. Sem essas lições, essas crianças e adolescentes se tornarão adultos que continuam dependentes de seus pais, que vão desanimar e desistir perante os primeiros obstáculos, que sofrerão desproporcionalmente com qualquer contragosto, que possivelmente não vão respeitar os limites que a sociedade impõe, desenvolvendo uma tendência de colocar seus próprios caprichos acima do bem estar do próximo.

A “vacina” para tudo isso, é saber que, ao nos esforçarmos para criar um ambiente superprotegido, onde só existe o prazer, estamos prejudicando nossos filhos. Deixando as crianças livres para experimentar o lado bom e o lado difícil da vida, expressamos nosso amor e o desejo de que elas cresçam mais felizes e saudáveis, capazes de enfrentar os obstáculos que, inevitavelmente, vão encontrar.

 

Links interessantes pra quem quiser se aprofundar sobre o assunto:

http://www.cartaeducacao.com.br/entrevistas/os-pais-tem-medo-dos-filhos-de-dizer-nao/

https://www.youtube.com/watch?v=1Kxffmj78Os

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/03/1606430-faculdade-faz-ate-reuniao-de-pais-contra-geracao-mimada.shtml

http://noticias.r7.com/saude/pais-que-mimam-filhos-estao-criando-geracao-de-adultos-deslocados-e-incapazes-de-lidar-com-frustracao-17092015

https://papodehomem.com.br/a-nova-geracao-de-pais-que-mimam/

http://tudosobreminhamae.com/blog/2017/3/1/deixar-a-criana-sem-fazer-nada-uma-das-melhores-coisas-que-podemos-fazer-por-nossos-filhos