Dia Internacional da tolerância

Dia Internacional da tolerância

Por Gabriel Baptista – Psicólogo – CRP 06/127340

No dia 16 de Novembro, comemora-se o Dia Internacional da Tolerância. A data foi instituída em 1995, pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. A ideia de celebrar a tolerância veio no sentido de reafirmar a fé nos Direitos Humanos fundamentais, além da dignidade e o valor de cada indivíduo. Incentivar a tolerância entre os povos seria também uma proposta que tem como objetivo evitar mais guerras por questões culturais e estimular a convivência pacífica entre os povos.

Vinte e um anos se passaram, e hoje cabe a reflexão: o mundo está mais tolerante? Diariamente temos notícias de guerras que assolam diversos países, motivadas por interesses econômicos, disputas de território, crenças religiosas, xenofobia. A mesma xenofobia é sentida diariamente por imigrantes que tentam fugir dessas guerras e não conseguem encontrar um novo lar onde são vistos como uma ameaça, simplesmente por serem estrangeiros. Ditadores incentivam forças armadas e a população a cometerem os mais cruéis atos de violência contra grupos “indesejáveis” da população.

E não precisamos ir tão longe para dar outros exemplos. No Brasil, temos uma sociedade que discrimina pessoas pela cor de sua pele, por sua religião, por sua sexualidade. Enquanto alguns insistem em dizer que não existe racismo, homofobia, machismo, casais homossexuais têm medo de andar de mãos dadas na rua por correrem risco real de serem agredidos só por serem diferentes de um padrão imposto. Pessoas negras têm seus direitos violados rotineiramente em ambientes onde ainda não são bem-vindas. Mulheres competentes perdem espaço no mercado de trabalho porque muitos homens ainda não se sentem a vontade vendo-as em posições de destaque.

Quando vemos notícias de crianças sendo espancadas na rua por causa da religião que praticam, nossa esperança de uma sociedade mais tolerante vacila. A ascensão de políticos que tem uma atuação baseada em valores retrógrados, e que tem como objetivo impor tais valores a todos, aparece como uma manifestação do aumento da intolerância na população como um todo.

Seria, então, a tolerância um valor perdido? Deveríamos nos resignar e aceitar que devemos tentar sobreviver num mundo que oferece perigos a todo aquele que é diferente? Parece uma perspectiva terrível, mesmo porque, quando olhamos de forma ampla, quem é que não pode ser considerado diferente? Podemos viver protegidos por uma “bolha” ideológica, nos cercar de pessoas com valores e características semelhantes às nossas, mas isso não significa que tais características e valores sejam absolutos, e eventualmente vamos nos deparar com o divergente.

A violência, no entanto, nunca deve ser aceita. E não me refiro apenas à agressões físicas, mas a violência que existe nas palavras ofensivas que usamos para nos referir ao outro, nos gestos de desprezo que temos para com aqueles que cruzam nossos caminhos, na atitude de discriminação que anula os direitos de quem não é como a gente. Por tempo demais estamos vendo a pluralidade como uma ameaça, sem perceber que uma sociedade plural é muito mais rica do que um mundo de iguais.

Conviver com o diferente nos faz crescer, aprender coisas novas, entrar em contato com novas músicas, novas literaturas, novas possibilidades de vida. Quantas oportunidades não perdemos por não darmos uma chance a algo novo? Quantos melhores amigos nunca chegaram a conversar devido a um preconceito? Quantos amores potenciais deixamos de desenvolver porque não aceitamos um modo de vida diferente do nosso?

Tolerância é aceitar o diferente, é reconhecer que minhas ideias e valores não são absolutos, que ninguém pode ser o dono da verdade, e que todas as pessoas têm o direito a viver de maneira digna, sem se preocupar em esconder aquilo que são por medo de represálias. É ver o outro como irmão, e não como inimigo. Sentir-se seguro o suficiente para aceitar que o fato de existirem convicções diferentes não quer dizer que você precisa abrir mão das suas, nem se isolar, e nem isolar o outro.

Nesse Dia Internacional da Tolerância, façamos o exercício de refletir de que maneira podemos praticá-la em nosso dia a dia. Uma pessoa sozinha não muda uma cultura intolerante, não muda as leis e valores que regem nosso país, não muda a prioridade de políticos que só pensam no próprio umbigo. Mas ela pode fazer a diferença em seu entorno. Em sua família, em seu bairro, em sua cidade. Praticar a tolerância é ter paciência, é estar aberto a novas experiências, é deixar de julgar as pessoas por sua aparência, de ser hostil com quem não faz parte de seu próprio grupo. A prática da tolerância pode começar num ato tão simples quanto sorrir para alguém que você não conhece, dar bom dia para alguém que você até então ignorou. Um ato individual pode não mudar o mundo, mas certamente tem potencial para ajudar na construção dessa mudança.