Conto ou não conto? A revelação do abuso sexual – 18 de Maio dia da Prevenção ao Abuso e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Conto ou não conto? A revelação do abuso sexual – 18 de Maio dia da Prevenção ao Abuso e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Isa Maria de Souza Fernandes Ferrari – Psicóloga e Mestre em Educação Especial – CRP 122337

 

O dia 18 de Maio é conhecido como o dia da prevenção do abuso e da exploração sexual de crianças, tema de suma importância para pessoas de todas as idades vide os impactos que a violência sexual pode provocar na vida de uma criança ou adolescente e de sua família.

Neste texto o foco será a revelação do abuso sexual por crianças e adolescentes, sendo este um passo importante e imprescindível para que sejam adotadas medidas de proteção e os encaminhamentos legais necessários, minimizando assim a possibilidade de ocorrência de novos abusos. Além disso, a intervenção precoce e o acolhimento da criança ou do adolescente e sua família nos serviços saúde e de apoio psicossocial, da rede pública ou privada, pode interferir de maneira positiva diminuindo o impacto das consequências do abuso sexual a médio e longo prazo.

Para começar, podemos dividir a revelação do abuso sexual em 4 tipos, segundo o estudo realizado por Collings, Griffiths e Kumalo (2005):

  1. Revelação intencional: feita de modo verbal e espontâneo, não ambíguo e revelada pela própria vítima (por exemplo: “Fui/sou abusado[a] por _________”, “_______ tocou em minhas partes íntimas”, “________ me forçou a ter relações sexuais com ele[a]”);
  2. Revelação indireta: também feita espontaneamente e pela vítima, porém por meio de declarações ambíguas, que podem levantar suspeitas de outras pessoas sobre a ocorrência do abuso sexual (por exemplo: “estou com dor/coceira na minha vagina/pênis/ânus…”, “não quero mais brincar sozinho[a] com __________”, “não gosto de ser abraçado[a] por__________”). Podendo levar a questionamentos que incentivem a vítima a falar sobre a violência sofrida;
  3. Detecção por testemunha: quando um terceiro testemunha diretamente a situação de abuso sexual e denuncia esta situação ao cuidador da criança abusada ou uma autoridade (polícia, conselheiro tutelar, etc);
  4. Detecção acidental: situação onde o terceiro, apesar de não observar diretamente a situação de abuso sexual, toma conhecimento dela por meio da observação de sinais físicos, alterações emocionais e comportamentais, gerando questionamento da criança ou adolescente e/ou encaminhamento à um profissional, tornando o abuso evidente (como uma professora que nota mudanças no comportamento de um aluno, na sala de aula; ou um enfermeiro/médica que nota lesões incomuns nos genitais de uma criança ou adolescente durante um exame).

 

Deste modo, não é necessário que a criança/adolescente revele explicitamente o abuso sexual, sendo importante que as famílias e os profissionais da educação e saúde que mantém contato com as crianças/adolescentes estejam atentos e capacitados a identificar sinais, verbais e não verbais, que possam aparecer no convívio ou em um contexto de encontro específico, decorrentes de uma situação de abuso sexual. Em especial nos casos de crianças e adolescentes que contam com menos recursos de comunicação em seu repertório.

Mas mesmo crianças e adolescentes com capacidades cognitivas e de comunicação adequadas podem sentir dificuldade em revelar a situação de abuso sexual, por diversos motivos. Abaixo segue a descrição de alguns fatores que podem dificultar, impossibilitar ou postergar a revelação do abuso sexual:

  • Menor diferença de idade entre a vítima e o agressor;
  • A adoção, pela família, de práticas de violência física (tapas, socos, empurrões, beliscões, etc) como método de disciplina/punição;
  • Agressor com vínculo familiar com a vítima;
  • Ambientes sociais/familiares/comunitários que possuem tabus ou atitudes negativas a respeito da sexualidade;
  • Falta de diálogo;
  • Menor Capacidade cognitiva e de comunicação da criança/adolescente;
  • Pouco conhecimento sobre o próprio corpo, sobre sexualidade, consenso e violência sexual;
  • Crenças sociais a respeito dos papéis de gênero masculino e feminino;
  • Fatores emocionais (vergonha, culpa, medo);
  • A crença de que as crianças mentem e/ou fantasiam o abuso;
  • Etc;

 

Já outros contextos podem facilitar ou incentivar a revelação:

  • Maior diferença de idade entre vítima e o agressor;
  • Agressor sem vínculo familiar ou próximo à vítima;
  • Presença de apoio social e emocional;
  • Bom vínculo com cuidadores, professores e/ou profissionais de saúde;
  • Conhecimento adequado sobre o próprio corpo, consenso, sexualidade e violência sexual;
  • Conhecimento de estratégias para identificação e prevenção da violência sexual;
  • Pessoas que a criança considere de confiança e consiga conversar sobre seus problemas e dificuldades;
  • Ambientes sociais/familiares/comunitários que permitam o diálogo sobre sexualidade, sem tabus ou prevalência de atitudes negativas acerca do tema;
  • Capacidade cognitiva e de comunicação da criança/adolescente;

 

Olhando para tais aspectos torna-se evidente que um ambiente familiar que propicie diálogo, aceitação, acolhimento, apoio, confiança e respeito, mesmo frente as situações conflituosas, assim como, a realização de conversas sobre sexualidade de maneira natural e sem “tabus”, a existência de conversas sobre a violência sexual e o ensino de estratégias para identificação e prevenção do abuso sexual, podem facilitar o processo de revelação pela criança e/ou adolescente.

Também é importante manter uma postura aberta para o diálogo, estabelecendo um espaço seguro e calmo para receber de forma adequada a revelação de um episódio que pode ser marcado de intenso sofrimento para a criança/adolescente e que pode provocar mudanças na dinâmica familiar. Enfatizando que uma mudança que promova o fim do ciclo de qualquer violência, por mais dura que seja, será uma mudança positiva, esperada e desejável para a garantia do desenvolvimento e proteção das crianças e adolescentes.

Neste 18 de Maio, que cada vez mais nos tornemos pessoas em quem as crianças possam confiar e respeitar, e que elas se sintam amadas e seguras para nos contar sobre qualquer assunto, por mais doloroso que seja. E, desta forma, pelo amor e confiança, consigamos proteger nossas crianças e adolescentes do abuso e da exploração sexual.

 

Referências:

Baía, P., Veloso, M., Habigzang, L., Dell’Aglio, D., & Magalhães, C. (2015). Padrões de revelação e descoberta do abuso sexual de crianças e adolescentes. Revista de Psicología, 24(1). doi:10.5354/0719-0581.2015.37007

Collings, S. J., Griffiths, S., & Kumalo, M. (2005). Patterns of disclosure in child sexual abuse. South African Journal of Psychology, 35(2), 270-285.  http://dx.doi.org/10.1177/008124630503500207. In: Baía, P., Veloso, M., Habigzang, L., Dell’Aglio, D., & Magalhães, C. (2015). Padrões de revelação e descoberta do abuso sexual de crianças e adolescentes. Revista de Psicología, 24(1). doi:10.5354/0719-0581.2015.37007

Hohendorff, Jean Von, Santos, Samara Silva dos, & Dell’Aglio, Débora Dalbosco. (2015). Estudo de caso sobre a revelação da violência sexual contra meninos. Contextos Clínicos8(1), 46-54. https://dx.doi.org/10.4013/ctc.2015.81.05

Santos, Samara Silva dos, & Dell’Aglio, Débora Dalbosco. (2010). Quando o silêncio é rompido: o processo de revelação e notificação de abuso sexual infantil. Psicologia & Sociedade22(2), 328-335. https://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822010000200013