“Calma Filho, a mamãe está com pressa”!

“Calma Filho, a mamãe está com pressa”!

Por Renata Lela – Psicóloga

CRP: 06/68519

 

O que uma frase como essa pode ter de relação com o suicídio e porque escolhi essa frase para fecharmos o mês de prevenção ao Suicídio?

 

Dia desses, estava em um corredor no supermercado, quando ao meu lado, estava um garotinho de aproximadamente quatro anos portando-se de forma bem impaciente, ansioso e questionando a mãe a cada 5 segundos sobre ir para a casa, dizendo que estava cansado e que gostaria de ir embora. Depois de muita insistência, a mãe visivelmente agitada e apressada, com um comportamento bem irritado, deu ao garotinho a seguinte resposta, puxando–o pelas mãos…

“- Calma Filho, a mamãe está com pressa e você está atrapalhando a mamãe”.

Na hora, em meio às compras, não me detive com reflexões sobre a incongruência daquela frase, mas assim que entrei no carro e a cena voltou em minha mente, foi difícil não lembrar da fala da mãe e começar a refletir sobre qual mensagem aquela mãe estava dando ao filho pedindo calma a ele, mas ao mesmo tempo dizendo que estava apressada e andando rápido e acelerada pelos corredores do supermercado.   Além da reflexão sobre o exemplo ser infinitamente mais forte que as palavras, me detive em refletir sobre o que estamos fazendo com a nova geração e sobre qual herança estamos deixando para eles.

Em um curso que estou fazendo, o médico psiquiatra falou sobre a epigenética e o quanto ela influência muito mais até mesmo que fatores genéticos e aí me lembrei novamente da cena no supermercado e me questionei (além do fato do ambiente  de um supermercado não ser nada atrativo para uma criança em alguns setores, tirando as guloseimas e brinquedos…), o quanto aquele garotinho estava impaciente e não conseguia esperar, porque não sabia como fazer isso.

As crianças não nascem sabendo esperar, precisam ser ensinadas a não terem seus desejos atendidos de imediato, a receber um não e aceitá–lo, apesar de não gostarem (e quem gosta, não é mesmo?), a conquistar  algo e a sentir aquele “gosto” bem saboroso de desfrutar de algo que foi tão sonhado, tão planejado, ainda que “aquilo” seja apenas uma figurinha de  um álbum ou um doce ou até mesmo um brinquedo mais simples.

Vejo, em minha prática, crianças ansiosas em quase 100% das queixas, com dificuldade para esperar e para conquistar, e com tendência a desistir, e, quando conseguem atingir o objetivo, a ansiedade é tanta que querem mais, e o vazio faz um “buraco negro” gigante na vida dessas crianças e nada está bom, nunca nada é capaz de preencher esse vazio.

Vazio que pode ser preenchido com afeto, com atenção plena (porque será que nunca o mindfulness fez tanto sucesso como agora?), com olhares e brincadeiras, com tempo… tempo para brincar, para fazer nada, para esperar e planejar a conquista, que trata–se de algo que considero mais bonito em um ser humano.

Conquistar envolve dar o melhor para conseguir algo, envolve doação, esperar que aquilo ou a situação pela qual eu tanto me doei, venha em minha direção para que eu possa saborear o gosto da conquista e para que possa me orgulhar do que consegui e me fortalecer para a próxima expectativa e para o próximo objetivo. Mas a atual geração, sem saber o que é isso, age de forma imediatista, com reforço dos pais que, como a mãe do supermercado, também estão envolvidos com tantas questões, que não podem esperar… ou também não sabem esperar… ou se esqueceram de como é esperar. E não os critico, porque estamos imersos nessa velocidade absurda que as coisas caminham atualmente, sem conseguirmos respirar, pensar e assumir prioridades.

E com tanto imediatismo, com tanto vazio, torna–se muito forte a ideia das soluções mais rápidas e definitivas, como tirar a própria vida que já não tem sentido, que já “corre” vazia há tempos.

Quando voltei a mim, no carro, em meio ao trânsito, com buzinas e carros querendo ultrapassar por onde não podem, colando em minha traseira, percebi que para aquela mãe poder se acalmar e ensinar o que de fato é a calma para o filho, nós também precisamos nos acalmar. A sociedade precisa aprender a respirar, a pensar no próximo, a exercitar a gentileza e a acreditar no ser humano novamente, a olhar nos olhos das nossas crianças, com calma e dizer…

“- Filho, a mamãe sabe que é difícil, ela também está com pressa e chateada por ter que estar aqui agora, mas você me ajuda, a gente espera juntos e assim vamos para a casa”.

É preciso, urgente, preencher esse vazio, esse imediatismo, esse consumismo e reconquistar o prazer e o amor pela vida aprendendo ou reaprendendo juntos (afinal, as crianças são nossos maiores professores na grande maioria das situações da vida) ou continuaremos, todos nós, cometendo suicídio em vida e deixando esse recado para as futuras gerações.

Assinado: Uma pessoa que também está no caminho da aprendizagem da calma…